Denise Tavares e a Biblioteca Monteiro Lobato

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Há meses não atualizo este blog, o que é estranho, pois mal comecei e parei. Mas na verdade, ao começar a fazer análise de livros infantis, percebi que eu tenho uma verve de escritora e tinha muitas idéias guardadas há tempos – então parei com o blog e me dediquei a escrever (e também a contar histórias, pois essa é a grande graça em tudo isso).

Mas esse post de hoje não é para falar de mim, e sim de uma incrível coincidência. Uma pessoa, ao mesmo tempo distante e próxima, me deu de presente uma biografia de Denise Tavares, uma educadora baiana fundamental para a história da literatura infantil na Bahia e posso dizer mesmo no Brasil. A pessoa que me deu esse livro sequer sabe que eu sou leitora e escritora de livros infantis, então acho que foi um sinal do universo de que estou num caminho que era mesmo para ser trilhado.

Denise Tavares foi a pessoa que deu visibilidade à literatura infantil na Bahia, que lutou bravamente pela construção da primeira biblioteca infantil do estado, a Biblioteca Monteiro Lobato, situada no bairro de Nazaré. Ela foi visionária ao defender que a literatura infantil não é de segunda classe, de menor importância, mas sim de relevância fundamental para a formação de crianças e jovens, para a construção de um país educado, culto, criativo, inventivo.

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Ressalto que ela foi uma mulher, batalhando em meio a homens poderosos, políticos e até religiosos que eram contra seu projeto – é um ponto muito importante a ressaltar, pois demonstra o quanto ela teve que ser forte para se impor nesse meio e numa época em que as coisas não eram nada fáceis para as mulheres (continuam não sendo, mas isso é outra história). Esses opositores tinham na literatura de Monteiro Lobato algo revolucionário, com teor político subliminar; outros viam no projeto um despropósito, um desperdício de recursos para algo sem relevância.

Denise lutou muito para construir a Biblioteca, sua vida foi dedicada a isso e, creio eu, essa batalha (permeada por tantos embates, combates, mágoas, ressentimentos) pode ter originado ou impulsionado a que ficasse doente e infelizmente viesse a falecer tão jovem.

Bem, fato é que sempre convivi com a Biblioteca Monteiro Lobato, pois cresci no bairro de Nazaré. Já estive lá inúmeras vezes quando criança e jamais poderia imaginar toda a história por trás daquele prédio repleto de fantasia e conhecimento. Quanta luta, quanto suor, quanta obstinação foi necessária para que aquele prédio estivesse lá hoje!

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Me senti representada por Denise, pois nesse meu caminho de descoberta como escritora infantil, por vezes questionei porque estava fazendo isso, que sentido tem, o que me move, qual a importância de uma história infantil, porque me dedico horas e horas a desenvolver histórias, escrever, reescrever, ilustrar. Mas lendo sobre a vida de Denise Tavares, vi que no fundo eu sempre soube o quanto a literatura infantil é importante na formação de uma pessoa, o quando pode nos ajudar a descobrir o mundo, a nós mesmos e a viver.

Tanto é verdade que tenho vívida na lembrança as capas dos livros que li quando criança, os personagens, as passagens mais marcantes. Ainda pequena comecei a inventar histórias e cheguei a escrever um pequeno livro “Dudu, a ursinha feliz”.

Mas só agora, em 2016, tive esse reencontro com a literatura infantil. E agora, perto do Natal (parece até arte de Papai Noel), pude conhecer a história de Denise Tavares, uma educadora baiana, brasileira, visionária, corajosa, criativa, que lutou para que hoje eu estivesse aqui falando de literatura infantil e fazendo minhas próprias histórias.

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Super indico essa leitura:

Livro: Denise Tavares – A fada dos livros (Coleção Gente da Bahia)

Autores: Aurora Vasconcelos e Fabiano Oliveira Viana

Editora: Assembleia Cultural

Ano: 2016 (1a edição)

 

Fontes de imagens (por ordem):

Google

http://allevents.in/salvador/lan%C3%A7amento-do-livro-denise-tavares/1456742304351628

http://voceprecisadecor.com.br/tag/livros-leitura-skoob/

Chapeuzinhos coloridos

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Quando comprei esse livro, ainda me guiava pela capa e ilustração. Também me guiei pelas avaliações positivas que constavam no site. Errei feio nessa escolha.

A ideia do livro é bem original: conta várias versões para a clássica história da Chapeuzinho Vermelho, e a cada nova versão ela ganha uma nova cor para a sua roupinha. Tem a história da chapeuzinho branco, amarelo, preto…

Bom, as boas surpresas param por aí. Ao ler as primeiras versões desse livro, não pude nem terminar, pois fiquei espantada com as mensagens. Vejamos:

  • Na primeira narrativa, a vovó e a chapeuzinho tramam uma emboscada para capturar o lobo. A vovó dá um tiro no peito do bicho, depois as duas esquartejam e assam o lobo para comer. Por fim, o caçador as leva presas para a delegacia, pois o lobo estava em extinção. Sim, tem tiro e esquartejamento na história.
  • Em outra versão, a chapeuzinho pede ao lobo para morrer, pois é uma criança triste que não tem pai.  No final, o caçador corteja a mãe de chapeuzinho, que é viúva.

Acho que não preciso comentar mais. Li essas duas histórias para minha filha mais velha e imediatamente resolvi interromper a leitura. Doei o livro depois.

É muito importante não se encantar apenas com a parte estética dos livros e não se guiar cegamente por avaliações de sites de livrarias, pois não sabemos o perfil de leitura dos pais que avaliaram aquele livro e nem sabemos se os sites publicam também as avaliações negativas.

Temos que ler antes das crianças e prestar muita atenção ao conteúdo, às mensagens implícitas em textos aparentemente inocentes.

Esse livro, para mim, tem elementos de malícia e violência totalmente inoportunos.

Título: Chapeuzinhos Coloridos

Autores: Marcus Pimenta e José Torero

Editora: Alfaguara / Objetiva

Obax

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Uma narrativa confusa.

É um livro de ilustração belíssima, assim como o nome dos personagens principais: Obax, menina solitária que inventa histórias, e Nefisa, elefante imaginário que se torna seu amigo.

Obax imagina o que quiser, começa o livro imaginando uma chuva de flores. Quando todos contestam a veracidade disso, ela sai em viagem (imaginária) tentando encontrar essa chuva novamente para poder provar que foi real.

Nessa empreitada, ela encontra todo tipo de chuva (de pedras, de estrelas…), menos a de flores. Como assim? Se tudo que ela encontrou foi fruto da sua imaginação, porque não encontrou a chuva que ela já havia imaginado? Por que Obax se frustra com a sua própria imaginação, se ela já havia dado asas à chuva de flores?

O surgimento do seu amigo Nefisa também é confuso. Em uma página diz que ela tropeça numa pedra em forma de elefante, na outra ela encontra um elefante solitário perdido da manada.  Faltou um amarramento sutil que mostrasse logo à criança que a pedra se transformou no elefante no imaginário.

Atenção, agora vou ter que contar o final do livro!

No final, essa pedra dá origem a um robusto baobá florido de um dia para o outro, e desse baobá caem flores em forma de chuva. Isso finaliza o livro como um evento real, que prova a todos que a chuva de flores é possível.

Ora, até então as narrativas fantásticas de Obax eram contestadas por todos. Mas então um evento improvável, como uma pedra dar origem a uma imensa árvore da noite para o dia, encerra o livro como algo verídico. É possível uma pedra se transformar numa imensa árvore da noite para o dia?

Acho que algumas coisas ficaram sem lógica. As histórias fantásticas precisam ser verossímeis ou ao menos ensejar respostas congruentes com a narrativa. Achei que nisso o livro ficou devendo.

O grande trunfo é a ilustração e o fato de o enredo se passar em solo africano.

Título: Obax

Autor: André Neves

Editora: Brinque-Book

O sanduíche da Maricota

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Um livro sensacional.

História simples e divertida que traz uma mensagem muito bacana a respeito de ter sua própria vontade e não ser influenciado pelo querer de outras pessoas.

A história é contada em rimas interessantes. Eu e minhas filhas ficamos curiosas para avançar a cada página e descobrir quem mais bateria à porta da galinha Maricota para sugerir uma mudança em seu lanchinho.

O livro tem uma ilustração divertida e que representa bem o seu enredo. É possível contar a história sem ler, de tão expressivas que são as imagens.

Assim como ocorreu com o livro Uma gota de mágica, aprendi com esse livro uma palavra que desconhecia: quirera. É muito legal poder aprender com os livros infantis!

Na contracapa o autor e ilustrador, Avelino Guedes, conta como se deu a concepção da história. É surpreendente ver como situações do cotidiano podem inspirar temas tão fascinantes como o do Sanduíche da Maricota.

O livro é de  uma leitura fácil, interessante, divertida e com uma moral da história bem sutil. Super recomendo!

Título: O sanduíche da Maricota

Autor: Avelino Guedes

Editora: Moderna

Bem-te-vi

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Gosto muito de livros de poesia. Tenho lido Adélia Prado e isso suscitou em mim a vontade de ler poesias para as minhas filhas. Alguns livros que vou comentar aqui são dessa categoria.

O livro Bem-te-vi é uma fofura. São poesias feitas para as crianças, mas parece que foram escritas por elas. Simples, divertidas, envolvem temas que despertam o interesse infantil, como o circo, a natureza e Deus.

O livro é bom, mas não gostei da sua capa, não achei atraente. O problema não é propriamente a ilustração, mas são as cores que foram escolhidas: tons de azul e verde bem fechados, preto, marrom escuro. O único destaque é o amarelo do passarinho, que não foi suficiente para suavizar a imagem final. O livro me passou leveza, contudo, a capa não dá essa impressão. Eu acredito que a capa seja o primeiro elemento que pode atrair a atenção da criança.

Bom, quase todas as poesias parecem que foram escritas por crianças, a exemplo dessa:

Zum-zum-zum

O zumbido

Da abelha

Faz coceguinhas

Na orelha

Mas tem uma poesia chamada Infância que claramente é de um adulto falando sobre como foi sua infância no passado. Entre tantas poesias que podem ser lidas e compreendidas pela própria criança como uma fala sua, não sei se ela vai entender que essa poesia que relata a infância no tempo passado é a fala de um adulto. Eu teria escrito a poesia no tempo presente, como uma reprodução do que é o universo atual da criança, de modo a ter coesão com as demais poesias do livro.

Essa mesma poesia tem um trecho que eu mudaria: em meio ao relato de traquinagens comuns na infância, como “Chutei bola na chuva”, “Rachei a cabeça”, vem um trecho “Xinguei a professora”.

Há vinte, trinta anos, xingar a professora não passaria de usar um termo sem maiores repercussões, como “chata”, “faladeira”, “rabugenta”. Mas esse trecho não me agradou porque hoje em dia vemos muita agressividade contra os professores, que muitas vezes são desrespeitados, humilhados e sofrem até agressão física. Então dizer hoje em dia, em tempos de tanta violência e desrespeito ao próximo, que xingar a professora é uma coisa memorável da infância não me pareceu oportuno. Devemos, sim, incentivar a reverência e a admiração pela imagem do professor.

Posso ser cri-cri, mas de fato, presto atenção a cada mínima mensagem, não acho que livro infantil seja uma literatura inferior, sem importância. Por trás das palavras há grandes ensinamentos que as crianças, muito espertas e perspicazes que são, são capazes de assimilar muito rapidamente.

Então optei por riscar a lápis esse trecho e modificar para “Abracei a professora”, e assim vou ler para minhas filhas.

Notem que o livro tem o selo “Altamente Recomendável”, emitido pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil. Sendo bem criteriosa, acho que o livro é “Recomendável”, para ser “altamente” teriam que modificar o trecho que fala do xingamento à professora, é um trecho duvidoso.

Mas a leitura vale à pena para iniciar as crianças no universo poético.

Livro: Bem-te-vi

Autores: Lalau e Laurabeatriz

Editora: Companhia das Letrinhas

 

 

Meninas Negras

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Um livro controverso.

Na primeira leitura, esse livro gerou sentimentos contraditórios. Precisei reler até entender claramente o que me deu sensação de desconforto. Vejamos.

As três personagens são apresentadas por meio de algumas características, algumas físicas (a cor da pele sempre aparece) e algumas de personalidade. Para mim fica claro o objetivo da autora de destacar que a cor da pele é uma característica, assim como tantas outras que definem um indivíduo – ponto positivo para a obra.

Na segunda página do livro, a personagem Mariana aprende na escola que os negros vieram da África como escravos e, na página seguinte, a garota aparece sentada sobre uma nuvem sonhando com a liberdade, enquanto contempla uma mulher africana, vestida com trajes típicos, acompanhada por uma zebra.

O livro coloca o tema da escravidão de modo banal, como uma condição qualquer sob a qual um povo foi trazido a este país. É um tema duro, complexo, relevante, que, creio eu, não deveria ser citado sem que qualquer contextualização fosse feita: o que significa essa palavra? O que representou a escravidão de um povo? Quem o escravizou? Essa é a principal característica que define o povo negro que ajudou a construir o Brasil?

Claro que é uma oportunidade para que pais e filhos possam abordar o tema durante a leitura do livro – costumo fazer isso com minhas filhas, ir além do texto e imaginar outras coisas, abordar assuntos que condigam com a história. Mas me pareceu inadequado não dar representatividade ao tema, já que ele foi introduzido. Além disso, o livro gera uma confusão ao falar da escravidão no passado, mas a garotinha no tempo presente ainda sonha com a liberdade. Ainda somos escravos?

Em outros dois trechos o livro fala sobre resistência e, em um deles, fala também sobre não desistir de ser feliz:

“Luanda, de som na alma negra tão natural, balança seu corpo para resistir. Dança sua história, menina feliz”.

“Elas se enxergam cada vez mais no lindo espelho da Mãe-Africa. E juntam os conhecimentos com a imaginação de um povo resistente que nunca desiste de ser feliz.”

Como mãe negra, sei que minhas filhas enfrentarão situações em torno da questão racial ao longo da vida, mas tenho firme convicção de que nessa fase da infância é preciso fortalecer sua identidade e autoestima por meio de reforços positivos, de que são dignas, capazes, belas, de que o mundo está aí cheio de oportunidades maravilhosas, de que somos capazes de conquistar nossos objetivos. As agruras da vida serão melhor enfrentadas por quem tem autoconfiança e autoestima, não por quem aprendeu desde cedo que a liberdade lhe foi negada, de que não deve desistir de ser feliz – porque não é – e de que deve ter uma postura de resistência.

Bom, a ilustração é cativante e o conceito do livro, sem dúvida, é muito interessante, porém infelizmente foi mal executado.

Optei por não ler esse livro para minhas filhas, mas deixo aqui a minha opinião como mãe e leitora. Acho que vale à pena ler o livro para que cada um possa exercitar sua análise crítica.

Livro: Meninas Negras

Autora: Madu Costa

Editora: Mazza

Uma nova proposta: Livros personalizados

Acabo de ler no UOL sobre um site, ConteJá,  que cria livros personalizados para crianças. O link para a matéria está aqui:

http://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/2016/02/29/empresa-aposta-em-livros-personalizados-para-que-criancas-leiam-mais/

A idéia parece interessante inicialmente, uma forma de incentivar as crianças a ler a partir da reprodução do seu próprio universo.  Mas, para mim, como mãe de duas crianças pequenas, o grande poder do livro está justamente em apresentar às crianças personagens diversos, narrativas surpreendentes, situações e lugares jamais imaginados. Essa é a virtude do livro infantil: levar a criança a descortinar o universo da imaginação, conhecer as possibilidades do mundo, personagens com histórias de vida diferentes.

Espero que a proposta do livro personalizado seja para que os pais encomendem algo único – e se for assim, vale à pena a brincadeira de dar à criança um livro sobre si mesma. Não acredito que algum pai ou mãe encomende diversos títulos cujo personagem é o próprio filho e cujo universo representado também pertence à criança.  Num mundo em que as pessoas estão cada vez mais egoístas, auto centradas, cheias de ego, acho muito perigoso incentivar a criança com esse tipo de literatura cujo enredo gira em torno de si mesma.

Nos últimos anos viraram uma febre as lembrancinhas de aniversário personalizadas, eu mesma sempre mando fazer para as festas de minhas filhas. É bem bonito e interessante, mas é um mimo realmente, uma lembrança para o amiguinho levar para casa. O livro tem uma proposta e uma finalidade muito mais amplas.